OLX, essa carta é um experimento.
- Guilherme Fllores
- 3 de dez. de 2020
- 2 min de leitura

Uma tentativa inocentemente-sínica de nos conhecermos melhor. Aliás, “melhor” me parece um bom termo, pois, nos permite esquivar a aridez quantitativa. Não me interesso pelas tuas métricas e estatísticas, mas te convido a adentrarmos a dimensão qualitativa da existência, aceitas? Sim, se trata de uma pergunta retórica, o aceite, como sabes bem, não é pré-requisito em um monólogo assumido, então sigamos. Descobri que tens nome diminutivo, remetes, pelo que dizem, à expressão “online exchange”. Que tens a “alma” anglo-saxã não me admira, mas fui pego de surpresas ao saber de tuas origens na Argentina! Viva a América-Latina! Cruzamento que assinala aí certo “business plan”, não? Algo do tipo: explorar a precariedade dos mercados emergentes talvez? Uma suposição apenas. Mas estes são dados por demais objetivos e esta carta não tem objetivos claros, apenas intenções dispersas. Sendo assim, melhor seria aprofundarmos essa conversa através de outros requisitos.
Vamos à literatura. Shakespeare faz a pergunta, “to be, or not to be?”, o que é você OLX? E Borges responde: “Um labirinto de relações”. Fluxo, registro e catalogação de tudo que é dito e feito dentro dos teus domínios imprecisos. Ou seja, uma quimera, metade shopping metade biblioteca. Uma conceituação um tanto fantasiosa, admito, mas certamente melhor do que a autodefinição vazia do “intermediador neutro”. Fiquemos com Quimera então. Agora que sei para quem escrevo posso dar um ponto final a esta digressão para irmos finalmente ao que interessa: Eu, ator-rede, heterônimo de muitos e sinônimo de ninguém, venho por meio desta compartilhar minha perplexidade frente a seu modus-operandi, meu amigo. Tenho experimentado, já a algum tempo, infiltrar em seu sistema um pouco da arte. Não tenho a intenção de promover vendas, mas apenas trocas sensíveis, afetivas e simbólicas. Em suma, podes interpretar de certa forma um tanto piegas que “não quero dinheiro, só quero amor sincero”. Parece imaturidade, mas é arte, e arte não se consome, se compartilha.
Talvez te pareça que esta carta é pura afetação, e, em certo sentido, concordo. Escrevo cada linha de código sob o efeito de um sem número de afetos e relações. Uma rede sensível que a linearidade dos símbolos não pode traduzir. Tenho certeza que não falo grego, conheces bem os determinismos da programação, não? A diferença, talvez, seja a escolha. Eu escolho como antípoda desta trágica limitação a poesia, pois o que me interessa é expressar, afetar e expandir, ao invés de mensurar, metrificar e reduzir. Por isso, quando questionaste a objetividade de meus enunciados, bloqueando por muitas vezes meus anúncios artísticos, entendi a natureza da nossa relação. Queres cristalizar e conduzir as atenções enquanto eu busco perturbá-las criando novas tensões. Mas não me entenda mau, apesar da ironia não me veja como oposição. Estamos, como podes perceber, interligados - causa e efeito um do outro. Como disse antes, esta carta não tem objetivos claros, logo, não seria coerente terminá-la com uma afirmação. Sendo assim, me despeço com outra interrogação:
O que seria do teu “business plan” se as pessoas passassem a ser como “O Pessoa”? Como o teu programa processaria as relações se e a rede se inundasse de heterônimos imaginativos e toda a realidade mergulhasse de vez no espaço criativo da ficção?
Atenciosamente: Ator-rede (noreplay)



info@olx.com.br


Comentários